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Magreza como virtude, comida como vitrine e os paradoxos de uma sociedade doente

  • Foto do escritor: Giovana Colletti
    Giovana Colletti
  • 11 de set. de 2025
  • 2 min de leitura

Vivemos em uma era paradoxal onde de um lado nunca se falou tanto em “comer bem”, “se alimentar de forma saudável” e “equilibrar corpo e mente”, enquanto por outro lado nunca estivemos tão aprisionados a padrões rígidos, à estética do corpo magro como sinônimo de valor e à comida como símbolo social, estético e moral. O alimento, que deveria ser expressão de vida, cultura e partilha, foi sequestrado por discursos que o transformaram em acessório de status, em ferramenta de aceitação ou rejeição social.


O culto à magreza não é novo, ele acompanha séculos de opressão sobre os corpos, principalmente femininos, que foram moldados e julgados como vitrines de disciplina, autocontrole e submissão às normas sociais. O que muda hoje é a sofisticação dos mecanismos, visto que temos acesso a revistas, redes sociais, influenciadores e até profissionais de saúde se tornam porta-vozes de um ideal inatingível, travestido de bem-estar ou autocuidado. A magreza, nesse cenário, deixa de ser apenas um tipo de corpo e se torna uma virtude.

Imagem: Banco de dados da internet
Imagem: Banco de dados da internet

Nesse mesmo movimento, a comida deixou de ser alimento e passou a ser objeto estético. Um prato não é mais medido pelo sabor, pelo afeto ou pela nutrição, mas pela quantidade de calorias, pelo valor “fit”, pela fotogenia em uma postagem. Comer virou performance. O café da manhã precisa ser instagramável; o almoço, balanceado e digno de hashtags; a sobremesa, “sem culpa”. Essa moralização do comer reforça um sistema onde os alimentos são julgados como bons ou ruins, puros ou sujos e, por consequência, os sujeitos que os consomem também são reduzidos a essas etiquetas.


O problema não é o cuidado com a saúde, mas a distorção que confunde saúde com estética, alimento com ornamento, corpo com produto. Esse processo desumaniza, porque retira do comer o seu sentido humano mais profundo: a relação com a fome, o prazer, a cultura, a memória. Comer deixa de ser um ato de autonomia e se torna mais uma vitrine de aceitação social.


A crítica a esse culto não é um convite ao descuido, mas à consciência. É preciso resgatar a comida como linguagem cultural, como direito humano e como experiência subjetiva, livre de moralizações e imposições estéticas. É urgente enxergar o corpo para além da balança, do percentual de gordura e da estética das vitrines digitais. Afinal, a magreza não é sinônimo de saúde, assim como a comida não é acessório e enquanto não desatrelarmos o valor humano do peso corporal e o sentido da alimentação da lógica performática, continuaremos a viver em um paradoxo cruel de uma sociedade obcecada por saúde que, ironicamente, adoece em nome dela.

 
 
 

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