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Obesidade é escolha?

  • Foto do escritor: Giovana Colletti
    Giovana Colletti
  • 9 de set. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 11 de set. de 2025



Imagem: Banco de dados da internet

A discussão em torno da obesidade sempre levanta opiniões, há quem insista em reduzir a uma questão de vontade individual onde a fala “basta comer menos e se exercitar mais” já se encontra na ponta da língua, mas essa visão simplista ignora fatores biológicos, sociais, econômicos, ambientais e políticos que atravessam a vida das pessoas. Como nutricionista, afirmo: a obesidade não é uma escolha, ela é uma condição complexa, multifatorial, reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como doença crônica, classificada inclusive pelo CID-10.


Historicamente, o corpo gordo foi alvo de estigmas, a sociedade tende a associar magreza à disciplina e saúde e obesidade à preguiça e falta de autocontrole essa lógica moralizante reforça preconceitos e silencia o fato de que a genética pode responder por até 70% da predisposição ao ganho de peso. Além disso, processos hormonais, microbiota intestinal e uso de determinados medicamentos interferem diretamente no metabolismo. Reduzir a obesidade à "falta de força de vontade" é ignorar a ciência, já que se torna mais fácil culpar o indivíduo do que questionar um sistema que promove ambientes obesogênicos, onde comida ultraprocessada é mais barata e acessível do que alimentos saudáveis, onde o tempo e os espaços para prática de atividade física são privilégios de poucos.


A obesidade não nasce apenas no prato, ela também é fruto de um ambiente que favorece o ganho de peso. A chamada epidemia de obesidade é, em grande parte, consequência do que especialistas chamam de ambiente obesogênico — contextos urbanos e sociais que estimulam comportamentos não saudáveis. Nas grandes cidades, é cada vez mais difícil encontrar espaços seguros e acessíveis para caminhar ou praticar esportes, o excesso de trabalho e os longos deslocamentos reduzem o tempo para preparar refeições caseiras, fazendo com que muitos optem por soluções rápidas, ultraprocessadas e, quase sempre, menos nutritivas, tudo isso somatizado e agravado pela publicidade agressiva de alimentos industrializados.


O Brasil ilustra bem essa contradição, de acordo com a pesquisa nacional de saúde realizada em 2020, mais da metade da população adulta está com excesso de peso, esse dado não pode ser lido apenas como reflexo de escolhas pessoais, mas também de políticas públicas frágeis em relação à alimentação e saúde preventiva. Enquanto o marketing agressivo da indústria alimentícia naturaliza o consumo de bebidas açucaradas e fast food, famílias de baixa renda enfrentam o dilema de escolher entre o preço do arroz e feijão ou um pacote de biscoito recheado, significativamente mais barato. Essa não é uma escolha livre, é uma imposição econômica e ambiental. O próprio Guia Alimentar para a População Brasileira reforça que alimentação é um ato político. A forma como produzimos, distribuímos e consumimos alimentos está diretamente ligada a desigualdades sociais.


É de extrema importância entender que estar obeso e ser obeso não são sinônimos. Estar obeso pode ser uma condição transitória, marcada por mudanças fisiológicas, emocionais ou de rotina que levam ao acúmulo de peso em determinado momento da vida, já ser obeso ultrapassa o aspecto biológico e se conecta ao campo social, cultural e político.


Apesar do reconhecimento pelo CID, muitas vezes a obesidade não é vista nem tratada como doença, mas como falha moral. Isso gera barreiras no acesso à saúde: pacientes relatam discriminação em consultórios médicos, dificuldade de receber acolhimento multiprofissional e, pior, atrasos em diagnósticos porque os sintomas são sempre atribuídos “ao excesso de peso”. Esse estigma afasta as pessoas do cuidado, a obesidade precisa ser entendida sob o olhar da saúde pública, não da culpabilização individual. O tratamento deve incluir educação alimentar, suporte psicológico, acesso a medicamentos quando indicados, intervenções cirúrgicas em casos específicos, mas sobretudo, políticas estruturais que reduzam desigualdades e modifiquem o ambiente.


Portanto, afirmar que a obesidade é escolha é negligenciar todo um arcabouço de evidências científicas e sociais, é fechar os olhos para o impacto da pobreza, da precarização do trabalho, da publicidade nociva e da falta de políticas públicas de alimentação e nutrição. É ignorar que o ambiente em que vivemos molda nossas possibilidades de saúde. Se quisermos de fato avançar, precisamos combater o estigma, reconhecer a obesidade como doença crônica e tratá-la com a mesma seriedade que tratamos outras doenças crônicas não transmissíveis, como hipertensão e diabetes. E mais: precisamos responsabilizar governos e indústrias por criarem ambientes que favorecem o adoecimento.


A pergunta “obesidade é escolha?” deveria ser substituída por outra, mais honesta e necessária: quais escolhas políticas, sociais e ambientais estamos fazendo para que a obesidade continue crescendo como epidemia global?

 
 
 

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